10 mitos sobre catadores

Foto: Manuel Rosaldo.

Foto: Manuel Rosaldo.

1.) Catadores autônomos oferecem poucos benefícios à sociedade. Catadores autônomos coletam quase 90% do material reciclado no Brasil e ajudaram o país a conquistar o recorde mundial de 98.2% da taxa de recuperação de latinhas. Com o devido apoio, eles também poderiam alcançar tais índices quanto a outros materiais. O trabalho dos catadores oferece consideráveis benefícios econômicos e ecológicos: redução no custo de transporte de resíduos, economia de espaço de armazenagem nos aterros, diminuição na quantidade de matérias-primas virgens necessárias à produção e abrandamento de mudanças climáticas.

2.) Cidades “modernas” não têm catadores autônomos. Os catadores autônomos atuam praticamente em toda grande cidade do mundo, incluindo aquelas do hemisfério norte. De fato, 21 países cruzando a América do Norte, Europa e Ásia cobram uma pequena taxa sobre vasilhames e latinhas, a qual é devolvida aos catadores e consumidores quando retornam os mesmos para os centros oficiais de reciclagem. Como exemplo, minha cidade natal, São Francisco, Califórnia, que conta com as mais avançadas tecnologias de reciclagem, leis e programas de educação pública do mundo – também possui milhares de catadores de rua. A combinação deles com rotas de reciclagem oficiais tem ajudado São Francisco a alcançar uma taxa de reciclagem acima de 80%, estando entre as mais altas do mundo.

3.) A reciclagem de rua não é eficiente. Em um artigo intitulado “A Eficiência da Informalidade”, um grupo de cientistas ecológicos da Universidade da Califórnia em Berkeley comparou a redução de gases de efeito estufa gerada pelos catadores de rua na Colômbia com a de empresas privadas de reciclagem. Foi constatado que os catadores apresentaram, de longe, um desempenho superior ao das empresas devido essencialmente ao fato de que eles não só reciclavam, mas também recuperavam muitos artigos para reuso ou venda.

4.) Catadores autônomos causam congestionamento de trânsito. O trânsito é causado pelo mau planejamento urbano e transporte público deficiente, não pelos catadores que têm tanto direito ao uso das vias públicas quanto qualquer pessoa. Uma forma de aliviar o congestionamento é criando ciclovias que não só incentivam as pessoas a pedalar, mas também são usadas por catadores e vendedores ambulantes.

5.) Catadores abusam dos animais. Embora a escala de sofrimento animal imposta pela indústria da reciclagem seja insignificante se comparada com a das indústrias como a da criação intensiva, não se pode negar que os carroceiros, às vezes, não cuidam devidamente de seus cavalos. A solução está em prover aos catadores os recursos que necessitam para cuidar de seus animais, ou oferecer meios alternativos de transporte. Como exemplo, a cidade de Bogotá proibiu o uso de carroças puxadas por cavalo em 2012, mas em contrapartida forneceu 3.000 caminhões aos carroceiros.

6.) Catadores são delinquentes e criminosos. Muito pelo contrário, vários estudos mostram que a catação evita que indivíduos muito carentes se voltem para a criminalidade. Por exemplo, a economista Bevin Ashenmiller verificou as taxas de criminalidade de 10.000 cidades norte-americanas entre 1973 e 2001. Ela constatou que as taxas de pequenos delitos diminuíram quando as cidades implementaram “A Lei do Vasilhame Retornável” que incentivou a reciclagem informal.

7.) As cooperativas de reciclagem resolveram o “problema” da reciclagem de rua. Atualmente, as 17 cooperativas de reciclagem de Porto Alegre empregam cerca de 600 catadores. As cooperativas são uma maravilhosa iniciativa, porém no momento não têm a capacidade de absorver os 7.000 catadores autônomos. Além disso, as cooperativas operam com a tremenda insuficiência de fundos e matérias, e como resultado, frequentemente, muitas vezes os cooperados ganham menos que um salário mínimo. Se a cidade aumentasse o apoio às cooperativas e começasse a contratá-las para oferecer educação ambiental e serviços de coleta seletiva, elas se tornariam uma alternativa mais atraente para os catadores autônomos.

8.) A catação de rua é quase a pior profissão que existe. Muitos dos catadores que entrevistei em Porto Alegre e em outras cidades relatam ganhos superiores ao salário mínimo. Muitos já tinham trabalhado em outras profissões anteriormente, porém acabaram preferindo a reciclagem por experienciar o aumento nos ganhos, segurança, flexibilidade e autonomia.

9.) A reciclagem é uma fonte de vulnerabilidade. A reciclagem é um recurso que populações vulneráveis forjaram no decurso de muitas gerações com seu trabalho manual e intelectual. As origens da vulnerabilidade do catador são as mais amplas: hierarquia de classes, a opressão de gênero e raça bem como a inaptidão do Estado. A solução é a adoção de uma política social mais justa, não a criminalização.

10.) Não é possível melhorar as condições de trabalho dos catadores enquanto permanecerem nas ruas. Muitas cidades encontraram formas de reconhecer e remunerar o trabalho dos catadores de rua. Em Bogotá, Colômbia, funcionários do governo local identificaram 18.000 catadores autônomos por meio do censo e então lhes deram uniformes em reconhecimento ao serviço público que prestavam. Além disso, Bogotá realiza pagamentos bimensais aos 13.000 catadores tendo como base os materiais que eles vendem aos estabelecimentos credenciados. A cidade paga aos catadores via mensagens de texto com códigos que são resgatáveis nos caixas eletrônicos.

Fonte: Aliança Global de Catadores – A lista é inspirada por uma lista parecida feita pelo autor, Martin Medina, no livro Os Catadores do Mundo de 2007.

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