Alunos surpreende com projeto escolar sobre os catadores em São Paulo

No final de 2016, na EMEF 19 de Novembro, um grupo de alunos do 9º ano surpreendeu a todos com uma apresentação de um trabalho pra lá de especial – mostraram à escola a importância do trabalho dos catadores de materiais recicláveis, invisíveis na nossa sociedade.

“A ideia foi de um dos integrantes do grupo e ninguém tinha feito um trabalho com este tema”, comenta a aluna e uma das integrantes Isabella Nathalia, 15 anos.

Para cada tema aprovado os estudantes contaram a orientação de um professor, e com o grupo da Isabela não foi diferente. Eles tiveram o apoio da professora de geografia Denise Lopes, 45 anos. “Quando iniciamos os nossos encontros, fiquei muito feliz e surpresa com a escolha do tema, pois eu já me interessava pelo assunto”.

Para a construção do conteúdo, os jovens estudaram vários conteúdos, como o livro “Cadeia de reciclagem: um olhar para os catadores”, de Jacques Demajorovic e Marcia Lima, e o documentário do Vick Muniz, Lixo Extraordinário (veja dicas de documentários sobre catador).

Rolou até uma pesquisa no site do Pimp My Carroça para entender a importância do trabalho dos reais agentes ambientais \O/.

Com o passar do tempo o grupo foi mergulhando no tema e decidiram, junto com a professora Denise, se aproximar de um catador, “pedi às crianças que se aproximasse de algum catador nas ruas do bairro. Saindo da escola avistei a Cleonice coletando papelões na rua”.

Responsável por essa ponte, Denise conta que a conversa entre os alunos e a Cleonice aconteceram durante as coletas, “não fomos à sua casa, pois ela estava bastante atrapalhada com a mãe doente”, comenta.

O resultado final foi apresentado para professores, diretores e moradores da região. Rolou até uma leitura emocionante de dois poemas (leia abaixo) sobre eles, os catadores.

“Os catadores são bem ocultos na sociedade e apesar de ser muito importante para meio ambiente, é uma forma de trabalho. Assim algumas famílias conseguem seu sustento e uma forma de sobreviver”, comenta a aluna Isabela.

“Em 2016, a escola inteira esteve envolvida com temáticas ambientais e o cuidado consigo mesmo, os outros e o ambiente”, desabafa a professora.

Veja os dois poemas citados no trabalho da turma!

Poema 1: O Catador

Manuel de Barros

Um homem catava pregos no chão.

Sempre os encontrava deitados de comprido,

ou de lado, ou de joelhos no chão.

Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais – o homem pensava.

Eles não exercem mais a função de pregar.

São patrimônios inúteis da humanidade.

Ganharam o privilégio do abandono.

O homem passava o dia inteiro nessa função de catar

pregos enferrujados.

Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.

Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.

Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record – 2001, pág. 43.

 

Poema 2

Autor desconhecido

Quase certeza que o outro poema era esse, mas preciso confirmar:

Conheço minha cidade como a palma da mão

E amo de coração, pois nela moro e trabalho

E o que tenho e valho vou construindo aos pouquinhos

Puxando um simples carrinho de catador, minha sina

com suor e muito espinho.

Madrugo com a cidade, com suas ruas e avenidas

Nas lançantes e subidas vou puxando meu carrinho

E andando, devagarzinho vou catando pelo lixo

O meu trabalho, a capricho recolher aqui e ali

Lutando pra conseguir chegar primeiro que os bichos.

Meu trabalho é muito digno, pois eu trabalho de fato

Não é brinquedo ou aparato

Alguém puxando carrinho, abrindo o próprio caminho

No corre – corre da cidade é trabalho de necessidade

Braçal e tão cansativo que não há nenhum motivo

Pra faltar com a verdade.

Quantas vezes fui xingado por alguns ‘motoristinhas’

Carimbadas figurinhas que se adonam da cidade

E em qualquer velocidade, não respeitam o sinal

E de um modo geral, não respeitam quase nada

Muito menos a jornada de um catador profissional

Sou o catador de lixo, trabalhador, papeleiro

Meu trabalho é pioneiro, na limpeza da cidade

Digo isso com vaidade, pois foram os rejeitados

Que iniciaram, organizados a reciclagem do lixo

Separando com capricho para ser reaproveitado.

É do lixo que tiramos a comida e o sustento

Enfrentando chuva e vento, sol que arde e tempo frio

É um eterno desafio, todo dia sempre a pé

Realidade injusta até, de catador, do papeleiro

Daqueles que são lixeiros, tratados como a ralé.

Somos humanos também, temos família, temos filhos

Embora o pouco brilho do carrinho que puxamos

Sorrimos, nos alegramos, temos fé e perseverança

São lindas nossas crianças, pois toda a criança é linda

Elas nos dão força e ainda, nos enchem de esperança.

Quantas vezes pelas ruas carregando meu carrinho

Sigo em frente, sozinho na jornada papeleira

A cidade é uma clareira de vitrine e manequins

Muitos olham para mim e me vêem como espantalho

Debocham do meu trabalho e nele querem dar um fim.

Unidos e organizados, papeleiro ou catador

Bravo! Irmão trabalhador!

Brava! Irmã trabalhadora!

A luta é duradoura

Pela vida, pela paz, e ninguém é mais capaz

Que os bravos catadores.

Nós somos os precursores de um mundo que se refaz.

No trabalho que fazemos, é possível perceber

Que o importante é viver sem ganância e desperdício

Sem injustiça e sem vício.

Quem não vê a desigualdade que se estampa na cidade

Pelas grandes diferenças e por eternas desavenças

Que matam a fraternidade?

Às vezes, o desânimo, tristeza, falta de apoio

Somos trigo e não joio, no mercado desigual

E o selvagem capital sempre explora nosso cisco

E jamais somos bem vistos…

Já afirmamos com clareza

Catadores e lixeiros, nós queremos ser parceiros

De um mundo solidário, onde o rico e o operário

Respeitem os seres vivos e se tornem mais ativos

Na luta pela justiça: no lixo toda injustiça.

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