A rotina de uma catadora de recicláveis no interior paulista

Itapeva é uma cidade com aproximadamente 90 mil habitantes, fica a 270 km de São Paulo e a 30 km da divisa com o Estado do Paraná. E, apesar de pequena e interiorana, Itapeva reproduz os mesmos costumes que as grandes cidades brasileiras, inclusive na alta produção de lixo, e a desvalorização daqueles que trabalham com a reciclagem.

Vani é uma mulher de 48 anos, mora com a filha de 17 e o neto de 1 ano e quatro meses. Vive em Itapeva há 28 anos, é nascida em Apiaí-SP (100 km de Itapeva), e mudou-se de lá em busca de oportunidades. Nos conhecemos em uma quinta-feira, 8 e meia da manhã, e ela já voltava pra casa com a “primeira viagem” de material coletado.

“Trabalho com isso há 15 anos, comecei no lixão da Santa Maria quando minha filha era pequena, mas parei quando me mudei de lá (do bairro Santa Maria)”, comenta a catadora.Vani conta que acorda às 5 horas da manhã todos os dias, faça chuva ou faça sol; calor ou esteja frio. Vale lembrar que Itapeva fica em uma das regiões mais frias durante o inverno no Estado de São Paulo.

“Ando a cidade inteira, saio cinco e meia da manhã e não tenho horário pra voltar”. Apesar de não ter hora pra voltar pra casa, Vani é obrigada a passar por lá diversas vezes ao dia. Por não ter um carrinho adequado para o trabalho, ela utiliza um carrinho de bebê, o que dificulta o transporte de muito material.

Por esse motivo ela prioriza a coleta nos bairros durante o dia, e deixa o centro da cidade para o período da noite. “O centro é bom de catar, mas o problema é que eu to sem carrinho, né, e no centro pra catar a gente tem que ter aqueles carrinhos grandes”.  Vani tem claramente uma preferência pelo centro, e ela se justifica ao dizer que “lá não tem muito a turma que fica enchendo o saco da gente, eles respeitam mais, o problema é que o carrinho enche muito rápido e não dá pra andar direito. O centro é bom de catar”.

De acordo com a catadora, nas vilas os moradores não gostam que mexam em seus lixos, enquanto no centro ela é melhor tratada. Para evitar problemas com o trânsito e a movimentação de pessoas e conseguir se locomover melhor, ela faz esse trajeto durante a noite “saio de casa lá pelas 7 horas, às 11 horas eu to voltando”.

Assim como em qualquer região do Brasil, o trabalho do catador é muito cansativo, e por vezes, humilhante, como afirma Vani. “Acho muito humilhante e cansativo. Tem gente que coopera, mas tem gente que não, e coloca junto das coisas do cachorro (fezes)… comida.” A catadora comenta que os maiores problemas que enfrenta são o trânsito, os motoristas que não respeitam, buzinam e a assustam; as pessoas que não separam o lixo; e muitas que a tratam como se ela fosse invisível. “Tem muita gente nessa vila que mistura tudo. É cocô de cachorro, papel higiênico, comida… E a gente tem que botar a mão pra separar. E tem ainda as “madames” que olham pra gente como se a gente fosse nada, fosse suja, e não alguém que limpasse a cidade”.

Pimp My Carroça - Foto 2 - Aline Antunes -

A catadora sai de casa às 5 e meia da manhã e nunca tem hora pra voltar. Anda todos os dias por toda a cidade de Itapeva.

Vani também enfrenta outras dificuldades fora as relacionadas ao seu trabalho. Com um neto pequeno para ajudar a criar, ela é a única que trabalha em sua casa. Sua filha precisou abandonar os estudos nos últimos meses para cuidar do filho, pois não conseguiram vaga na creche. Por sair da escola, o auxílio do Programa Bolsa Família que recebiam foi cortado. Os três moram em uma casa alugada, e as despesas com o aluguel estão altas demais para o orçamento da família.

Para melhorar a sua situação financeira, Vani está em busca de um emprego formal. “Fui no PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) antes de ontem, mas só tinha vaga em outra cidade, pra mim não dá. Eu faço qualquer coisa, trabalhei de cozinheira por 8 anos em Apiaí. Já trabalhei em açougue, como faxineira e empregada aqui em Itapeva. A gente faz de tudo.”

A catadora não sabia informar o quanto recebe por mês, mas disse que por semana consegue ganhar em média 50 reais com a venda dos materiais coletados. Ela conta também que mora em uma casa alugada, e que paga 500 reias por mês de aluguel. Esse mês ela precisou vender a geladeira para pagar a metade do valor.

Pedi a Vani que deixasse um recado para a população de Itapeva, e que falasse uma qualidade de seu trabalho. Ela não hesitou:

“Os moradores podiam organizar melhor os recicláveis pra gente, e não botar no meio da sujeira, pelo menos assim a gente trabalha mais limpa um pouco. E acho que meu trabalho faz bem pro meio ambiente, a gente ajuda na limpeza da cidade e a natureza não fica sofrendo”.

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