“A carroça me salvou!”

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“Nessa minha jornada já exerci diversas atividades. Alguns mascates, bicos e trabalhos regulamentados em regime de CLT…. Já fui empacotador, (no tempo em que as embalagens eram sacos de papel – estou ficando velho!), entreguei pizza, jornal, folheto… trabalhei como cartazista em supermercado, gandula em quadras de tênis.

Dentre algumas atividades que realizei, lembro-me que, quando criança ainda, ajudava meu pai que era carroceiro. Eu tinha mais ou menos sete anos e saía de manhãzinha, para coletarmos material reciclável lá no bairro da Chácara Flora e Jardim Marajoara. Passava a manhã inteira tocando campainhas e pedindo jornal velho.

Meu pai, “analfabeto de pai e mãe”- como ele mesmo dizia. Fazia questão de que não deixássemos de frequentar a escola, afinal, a família era grande: eu e mais quatro irmãos w queria que tivéssemos uma sorte melhor.

E nessas coletas eu e minha irmã tínhamos que arrumar os jornais que coletávamos para caber mais na carroça. E nesse processo eu parava no tempo e viajava, lendo as matérias e manchetes, afinal, eu estava em processo de alfabetização e essa era uma das partes que eu mais gostava. Meu pai ficava azul de raiva, pois assim, a gente estava perdendo tempo porque era menos material coletado e, consequentemente, menos renda, uma vez que tudo era vendido por quilo.

O tempo passou, eu cresci, e muitos anos depois por circunstâncias da vida, após um incêndio na favela onde eu morava – isso no ano de 2003- lá estava eu desempregado e sem um lar, morando na casa de uma prima… sem saber o rumo que tomar.

Eis que parte do meu passado se fez presente e lá estava eu, trabalhando como carroceiro. A carroça que não era minha, pegava emprestada de um ferro-velho com o compromisso de vender o material coletado exclusivamente para o mesmo depósito.

Passado o tempo fiz minha própria carroça, com rodas de rolamento e estrutura mais reforçada e bem pintada, conquistei minha liberdade! Podia vender o material para quem eu bem entendesse e me pagasse melhor.

Coletava madeiras em caçambas de entulho e as guardava na favela, algumas comprei com o dinheiro que ganhava com meu trabalho e com ajuda de amigos reconstrui o meu barraco, o Castelo de Madeira.

Em 2007 nas minhas andanças com a carroça, reparava nos muros cinza da cidade, um recado: “Mundano o 7” Pouco tempo depois, no bairro nobre da Vila Nova Conceição, vi uma carroça estilizada com o dizer: “a culpa não é da chuva!” os mesmos traços que eu já havia visto nos muros… pronto, gostei! Tá aí um trabalho bonito! Pensava eu com os meus botões, visibilidade aos invisíveis, me sentia representado.

Passado uns dez anos, eu já não exercia a nobre função de agente ambiental, muito embora não deixei de admirar e acompanhar o trabalho desse artista. Na tal das redes sociais, via suas postagens e me inteirava desse trabalho que dá voz aos catadores, que valoriza uma classe de trabalhador que sofre tanto pela informalidade e marginalização.

E nessa rede chamada vida, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Thiago, mais conhecido como Mundano, um bate papo rápido e mencionei  a admiração que tenho pelo seu ativismo e falei de uma carroça miniatura que confeccionei com materiais recicláveis… ele por sua vez falou de um de seus projetos que seguia nessa linha… Fiquei feliz por conceber algo que vai ao encontro das ideias de um artista cuja admiração já vem de longa data, mencionei de doar  “a mini carroça”  como forma de demonstrar minha gratidão, respeito e admiração a uma das profissões que  tenho o maior orgulho em ter exercido, a de Catador. E de poder falar que a carroça resgatou minha autoestima, minha dignidade, me fez ver o sol!

A carroça me salvou!”.

Alex de Freitas tem 35 anos e conquistou sua liberdade sendo catador de materiais recicláveis. Hoje em dia trabalha no Galpão da Bike, um de seus trabalhos.

Na foto, mini carroça que Alex elaborou com materiais recicláveis. Adoramos!

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